Durante muito tempo, quando imaginávamos uma casa, era quase automático pensar em uma família vivendo nela. E uma família grande. Vim de uma família com mais de vinte tios de primeiro grau.
Sala para receber, mesa para várias pessoas, muitos armários, eletrodomésticos grandes e quartos para diferentes moradores.
Mas a maneira como os brasileiros vivem está mudando — e as casas começam a mudar junto.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, 18,94% dos domicílios brasileiros tinham apenas um morador. Em outras palavras, praticamente 1 em cada 5 casas no país é habitada por uma única pessoa. IBGE
Outro levantamento do IBGE mostra a dimensão dessa transformação: entre 2000 e 2022, o número de pessoas vivendo sozinhas triplicou, chegando a 13,7 milhões. Educa IBGE
Não estamos falando mais de uma exceção.
Estamos falando de uma mudança na maneira de morar.
Morar sozinho não tem uma idade
Existe uma imagem bastante comum de quem mora sozinho: alguém jovem, saindo da casa dos pais e começando a vida adulta. Essa é uma cena comum assistida em filmes americanos.
Mas a realidade é muito mais diversa.
Há jovens vivendo sua primeira experiência de independência, profissionais que mudaram de cidade, pessoas divorciadas, viúvas, pessoas mais velhas e também aquelas que simplesmente escolheram ter a própria casa.
Dados históricos do IBGE já mostravam a importância das faixas etárias mais altas nesse fenômeno: em 2015, 63,7% das pessoas em arranjos unipessoais tinham 50 anos ou mais. IBGE
Por isso, talvez seja melhor deixar de imaginar “quem mora sozinho” como um único perfil.
Existem muitas maneiras de chegar a uma casa de uma pessoa só.
Se muda quem mora, muda a casa
Uma casa planejada para quatro pessoas não precisa necessariamente funcionar da mesma maneira para uma.
Talvez não seja necessária uma mesa para seis lugares.
Talvez uma geladeira enorme ocupe mais espaço do que entrega utilidade.
Um segundo quarto pode ser mais valioso como escritório, ateliê ou espaço para hobbies.
E aquele móvel usado apenas algumas vezes por ano pode começar a disputar espaço com algo que faz parte da rotina todos os dias.
É aí que uma mudança demográfica começa a produzir também uma mudança de olhar sobre a casa.
A pergunta deixa de ser:
“O que uma casa deve ter?”
e passa a ser:
“O que esta pessoa realmente precisa que sua casa tenha?”
Menos moradores não significa necessariamente menos casa
Existe uma diferença importante entre precisar de menos espaço e aceitar viver com menos conforto.
Uma pessoa que mora sozinha continua precisando descansar, cozinhar, guardar suas coisas, trabalhar, receber alguém, ter momentos de lazer e construir uma casa que tenha identidade.
Talvez a diferença esteja na escala.
Uma mesa menor pode ser suficiente.
Um eletrodoméstico compacto pode fazer mais sentido.
Um sofá-cama pode permitir receber alguém sem manter permanentemente um quarto de hóspedes.
Um móvel pode assumir duas funções.
E espaços antes considerados pequenos demais podem ser suficientes quando são planejados para a rotina de quem realmente vive ali.
Os apartamentos também ganharam espaço na forma de morar do brasileiro
Essa transformação acontece ao mesmo tempo em que outra mudança aparece nos dados.
Embora as casas continuem predominando no Brasil, a parcela da população vivendo em apartamentos passou de 8,5% em 2010 para 12,5% em 2022, segundo o IBGE. Educa IBGE
Isso não significa que todas as pessoas que moram sozinhas vivam em apartamentos pequenos — são fenômenos diferentes.
Mas as duas tendências ajudam a explicar por que temas como aproveitamento de espaço, móveis multifuncionais e soluções compactas passaram a fazer parte de tantas conversas sobre moradia.
Uma cozinha para uma pessoa também pode ser diferente
Talvez seja na cozinha que essa mudança fique mais evidente.
Durante décadas, muitos eletrodomésticos foram pensados para famílias: geladeiras grandes, fogões com várias bocas, mesas maiores e equipamentos capazes de preparar grandes quantidades.
Para uma pessoa, a lógica pode ser outra.
Não necessariamente porque ela cozinhe menos, mas porque quantidade e frequência mudam.
Uma pessoa pode descobrir que utiliza duas bocas do cooktop na maior parte do tempo. Outra pode cozinhar durante toda a semana e precisar de bastante espaço para armazenar alimentos.
É por isso que tamanho, sozinho, não resolve a questão.
A casa precisa acompanhar a rotina.
Morar sozinho também muda a relação com os espaços
Quando várias pessoas dividem uma casa, os ambientes precisam atender a necessidades diferentes.
Quando uma pessoa mora sozinha, existe mais liberdade para reorganizar essas funções.
A sala pode também ser escritório.
O segundo quarto pode virar academia.
A mesa de jantar pode funcionar como espaço de trabalho.
Uma varanda pode se tornar o lugar preferido da casa.
Não existe necessidade de manter determinado cômodo apenas porque tradicionalmente “uma casa tem que ter aquilo”.
E talvez essa seja uma das transformações mais interessantes desse novo jeito de morar: a casa pode ser desenhada em torno da vida de quem está nela.
E a indústria começa a olhar para isso
À medida que as formas de morar mudam, começam a ganhar espaço soluções pensadas para rotinas e áreas diferentes.
Móveis multifuncionais, eletrodomésticos compactos, sistemas de armazenamento vertical, cozinhas menores e ambientes que mudam de função ao longo do dia fazem cada vez mais sentido nesse cenário.
Não significa que tudo precise ser pequeno.
Significa que cada centímetro pode ser pensado com mais intenção.
Talvez estejamos repensando o que significa morar bem
Durante muito tempo, crescer significava também ter mais: uma casa maior, mais cômodos, mais móveis e mais coisas.
Hoje, para algumas pessoas, morar bem pode significar outra coisa.
Pode ser ter o espaço necessário para a vida que realmente levam.
Uma casa mais fácil de manter.
Menos coisas que quase nunca são usadas.
Mais liberdade para escolher onde e como viver.
E espaços que tenham mais relação com a pessoa que mora ali do que com uma ideia tradicional de como uma casa deveria ser.
O crescimento das pessoas vivendo sozinhas talvez seja apenas uma parte de uma transformação muito maior.
Estamos começando a perceber que não existe uma única maneira de construir uma casa.
Porque morar sozinho não significa viver pela metade.
E morar em poucos metros não significa viver com menos.
Significa pensar melhor sobre aquilo que realmente faz uma casa ser nossa.
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Morar em menos espaço também tem levado a novas formas de pensar a casa.
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